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25/07/2018

Com o mote Não quero mais a fome no meu País, o Centro Sabiá revive a preocupação que deu início a sua fundação

Ao longo dos 25 anos, o parceiro Centro Sabiá tem desenvolvido um belo trabalho com agricultoras/es familiares no Estado de Pernambuco. Este mês de agosto completa mais um ano de vida convocando a população a refletir sobre a volta do País ao mapa da fome. De acordo com a ActionAid Brasil nos últimos 03 anos, o número de pessoas em situação de extrema pobreza, no Brasil, voltou ao patamar de 12 anos atrás.
Essa situação tem se agravado pela crise política e econômica que se encontra o País, sem falar dos cortes orçamentários nos programas sociais. Cerca de 1 milhão de famílias foram cortadas do Programa Bolsa família em 2017 e 2018. Só o Programa de Aquisição de alimentos (PAA) teve cortes de 99,8% em 2018. Em entrevista a Casa da Mulher do Nordeste, o coordenador do Centro Sabiá Alexandre Pires, fala sobre a conjuntura e o que espera neste novo ciclo para o País e as famílias agricultoras.

CMN: Esse mês o Sabiá faz 25 anos, em relação a sua atuação o que você destaca de resultados na vida de agricultores/as?

Alexandre (Centro Sabiá): O Centro Sabiá tem contribuído para o acesso dos agricultores/as de um conhecimento do campo das políticas públicas voltadas para a agricultura familiar, um conhecimento sobre a perspectiva da agroecologia e dos sistemas agroflorestais como uma estratégia de produção e de conservação da biodiversidade de maneira sustentável dos agroecossistemas. Um destaque importante é a ação com as juventudes do campo, em função do diálogo com o FOJUPE, tem aproximado os jovens camponeses a dialogar e se inserirem em mobilização das juventudes a nível estadual junto ao FOJUPE. Também a aproximação com o movimento feminista e de organizações de mulheres, que tem nos provocado e nos ajudado a incorporar em nossas agendas políticas em defesa da promoção da agroecologia, a perspectiva feminista e a defesa dos direitos das mulheres. E isso tem sido muito importante para a equipe técnica do Sabiá e as famílias agricultoras.

CMN: Em relação ao cenário político, quais os principais desafios que o Sabiá tem enfrentado para manter sua missão viva e em movimento?

Alexandre (Centro Sabiá): O cenário político que vivemos no Brasil é bastante difícil, sobretudo por que ele é uma ameaça concreta a democracia do nosso país. E quando falamos de democracia, falamos do sentido mais amplo, não só do ponto de vista mais visível, que é a dimensão do poder instituído, o que vivenciamos com o golpe de 2016, mas falamos da democracia, a ameaça ao nosso processo de participação social, a diminuição da democratização dos orçamento público voltados para a agricultura familiar e a da agroecologia. Para a gente tem sido muito difícil, depois de anos ampliando e gerando capacidades de gestão de recursos públicos voltados para a agricultura familiar. A gente ter um recuo dessas iniciativas em função dos cortes de recursos e da não democratização do orçamento público. Esse tem sido algo que tem nos desafiado, na perspectiva de garantir nossa ação permanente com os agricultores. No entanto temos tido apoio com as agencias da cooperação internacional, e esse apoio tem sido fundamental para que a gente mantenha uma capacidade de organização e mobilização das famílias com as quais nós trabalhamos para manter viva a nossa ação junto aos territórios de construção da agroecologia com as famílias agricultoras.

CMN: Vocês colocaram como bandeira de luta para este 25 anos do Centro Sabiá o mote Não quero mais fome no meu País. Por que trazer esse debate e como as pessoas podem contribuir?

Alexandre (Centro Sabiá): Em função do contexto que estamos vivenciando da volta da fome ao Brasil, mais pessoas estão em situação de insegurança alimentar, e essa é uma preocupação. Quando o Sabiá foi fundado há 25 anos atrás essa era uma das principais preocupações do grupo de assessores que criou o Centro Sabiá. Era atuar junto aos agricultores familiares para que tivessem condições mínimas de alimentação, tivessem a sua segurança alimentar asseguradas. E o momento que vivemos no Brasil é de retrocessos, por que um conjunto de políticas e programas públicos contribuíram para que a população saísse da situação de extrema pobreza e miséria, e conseguisse garantir uma alimentação mais regular e em quantidade suficiente. E o momento que a gente vive é um momento em que cerca de 2 milhões de pessoas perdem essa condição, em função do desemprego, dos cortes das políticas e programas sociais e da crise política e econômica do País. E essa preocupação é o que levou a pensar o mote do Aniversário do Sabiá, que é Não quero mais a fome no meu País. Além de celebrar do ponto de vista festivo, mas também promover debates e reflexões na sociedade sobre essa perspectiva e ajudar a colocar a pauta da volta da fome ao Brasil na agenda política. Essa é a nossa intensão. 

CMN: O Sabiá tem um papel fundamental na Articulação política na ASA-PE e agora assumindo na nacional. Como você vê o papel do Sabiá neste espaço?

Alexandre ?(Centro Sabiá): O Sabiá é uma das organizações que esteve na constituição da ASA, antes mesmo de ser Centro Sabiá, éramos um grupo da Rede PTA no Centro Josué de Castro, em 1981. Nós ajudamos a construir junto a FETAPE e o Caatinga o Fórum Seca, criado em 1991, que no futuro dá origem, em 1999, a ASA-PE, junto com os outros Fóruns Estaduais. Então entendemos que a contribuição do Sabiá é de sempre colocar os agricultores familiares como sujeitos principais e centrais neste debate da convivência com o semiárido, com a valorização dos conhecimentos tradicionais, no reconhecimento dos saberes da agricultura familiar tradicional. Isso é bastante caro neste contexto e no debate da convivência com o Semiárido. Então estamos nessa construção, tentando contribuir dentro dos nossos limites junto as organizações da Rede. Estar atualmente na coordenação nacional da ASA é uma tarefa mais desafiante, e isso certamente coloca para o Sabiá uma responsabilidade de representação do Estado de Pernambuco, que sempre teve um papel importante no debate da convivência com o Semiárido. O Sabiá encara de forma necessária e importante, e pessoalmente eu acolho como algo que procurarei trabalhar e tentar responder as demandas que esse desafio apresenta, como a própria dimensão do acesso a recursos públicos de convivência com o semiárido, e encaro com disposição para os diálogos para que a gente continue mudando esse contexto de natureza política nesta região. 

CMN: O que o Sabiá deseja para os próximos anos de vida?

Alexandre (Centro Sabiá): O desejo do Centro Sabiá para os próximos anos é que possamos permanecer firmes nas Redes e nas Articulações que nós fazemos parte, como é o caso da ASA e da ANA. Fortalecendo essas Redes na perspectiva de que essas redes fortes, as nossas organizações, fortalecem esse conjunto e também a luta do campo popular e democrático. E possamos manter e retornar nossa ação com as famílias agricultoras, entendendo que essa prática nossa, ela ajuda a transformar e a melhorar a vida das pessoas que vivem no campo e na cidade, que isso seja o nosso horizonte para os próximos anos, que mantenhamos firmes nesta luta coletiva, com solidariedade, com força conjunta. 

Por Emanuela Castro, da Assessoria de Comunicação da Casa da Mulher do Nordeste

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