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16/11/2017

Dia da Consciência Negra representa a força e resistência da população negra no nosso país



Dandara e seu companheiro Zumbi são símbolos de resistência para o povo negro 

Uma batalha que nunca cessou. A celebração do dia da Consciência Negra representa um marco na luta dos(as) negros(as) no Brasil pelo enfrentamento ao racismo e pelo fim do preconceito. Celebrado no dia 20 de novembro, a data foi escolhida por ter sido o dia da morte do líder negro Zumbi, do quilombo dos Palmares, um dos maiores expoentes na luta contra a escravidão no nosso país.

“O 20 de novembro é o resultado da luta do movimento negro brasileiro que estabeleceu o Zumbi como uma referencia de identidade nacional. Esse movimento negro culminou em ações articuladas até o estado brasileiro reconhecer essa data. Foi nesse momento que nós, integrantes desse movimento, escolhemos não só o dia 20, mas todo o mês de novembro para homenagear a consciência negra em todo território brasileiro”, reforça Piedade Marques, integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco. O movimento negro, liderado durante anos por Zumbi e Dandara, surgiu de forma precária e ilegítima, mas já se estabeleceu atualmente como um dos patamares no enfrentamento às desigualdades existentes no nosso cotidiano.

Apesar da luta e da resistência que esses movimentos exercem a estrada para o fim do preconceito ainda tem um caminho longo e cheio de desafios. As atrocidades vividas pelos povos negros no Brasil colônia deveriam ter ficado no passado, quando a liberdade e o respeito eram artigos de luxo para quem veio de tão longe e se viu obrigado a trabalhar como escravo ou escrava no nosso país. A história tão assustadora, porém, não ficou só nos livros. Ainda hoje somos testemunhas de uma sociedade que exclui e discrimina os(as) negros(as), mesmo sendo eles e elas a grande maioria da nossa população. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os(as) negros(as) (pretos e pardos) eram a maioria da população brasileira em 2014, representando 53,6%. Mesmo com um percentual tão expressivo, os(as) negros(as) ainda se encaixam em números tristes no nosso território, somando 76% dos mais pobres do país em 2014.

Como se os números não falassem por si só, o preconceito é latente, porém velado. Vemos nas Tevês e demais meios de comunicação um falso discurso de combate a discriminação, que perpassa a fala como algo a ser combatido, mas que na prática, fica visível que ainda é desenvolvido. Um bom exemplo disso são as novelas, grandes espetáculos midiáticos de representações da sociedade que se apresentam como uma forma de diversão para o povo, mas que fazem questão de reforçar os estereótipos e colocam essa maioria da população como a vitimada, a empregada e o bandido. Isso, todavia, é um desenho da exclusão de negros e negras de espaços de poder na vida real, como vemos na política, nas próprias novelas e nas bancadas dos telejornais do país.

Quando falamos no recorte de gênero, outros números estarrecedores revelam todas as batalhas que ainda precisam ser vencidas. Segundo o Dossiê da Violência Contra a Mulher, lançado pelo Instituto Patrícia Galvão em 2015, dados da Central de Atendimento à Mulher – 180, relativos ao ano de 2013 apontam que 59,4% dos registros de violência doméstica no serviço referem-se a mulheres negras. O Dossiê Mulher 2015, do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, aponta que 56,8% das vítimas dos estupros registrados no Estado em 2014 eram negras. E 62,2% dos homicídios de mulheres vitimaram pretas (19,3%) e pardas (42,9%). A taxa de homicídio de mulheres negras é o dobro da taxa das mulheres brancas, isto na média nacional, pois existem estados onde a desigualdade racial é maior.

“A gente continua identificando no Brasil abismos cruéis no que se refere à desigualdade e nesses últimos anos com o golpe e a perda de direito isso tem se agravado. Contra as mulheres negras, temos pesquisas demonstrando o aumento expressivo da violência. Além disso, o assassinato da juventude negra é outra coisa que nos assusta muito. São mães e esposa que tem tido seus filhos e seus maridos mortos pela polícia, pelo tráfico, por motivos banais e isso pode ser considerado um extermínio”, salienta Piedade Marques.

Ninguém nasce racista. A construção desses preconceitos é reforçada ao longo dos anos, passando muitas vezes de geração em geração, sem que o laço do racismo e da discriminação seja rompido.
A imagem da(o) negra(o) constituída na sociedade aponta a forma mascarada da escravidão, que apenas aboliu o chicote e açoites, mas que reformulou as agressões, que agora tem formato de armas de fogo e discursos de ódio. Muita gente ainda insiste em não considerar a resistência negra como uma identidade cultural e socioeconômica brasileira. Zumbi não lutou sozinho, mas se tornou ícone por ter lutado mais. E é justamente essa luta que vários movimentos negros tentam reforçar e enaltecer, mesmo com tantos retrocessos e desafios que eles enxergam pela frente. O dia 20 de novembro é muito mais do que representativo, ele é uma simbologia a persistência, a força e a resistência do povo negro no nosso país.
 

Bruna Suianne, Núcleo de Comunicação da CMN

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